Artigos de Divulgação
 
  PALAVRAS QUE VÃO E VOLTAM

Publicado em Língua Portuguesa, ano 8, n.º 87, janeiro de 2013

Muitos vocábulos repudiados por puristas como estrangeirismos são, na verdade, palavras do nosso idioma transformadas por outro e importadas em nova forma

Palavras não têm fronteiras. Por isso, são inúteis as iniciativas de certos puristas em combater os estrangeirismos. Primeiro, porque eles entram em nossa língua sem pedir licença, e, depois que entraram, é quase impossível pô-los para fora. Segundo, porque, salvo no caso de modismos inconsequentes, quando importamos uma palavra, é porque, no fundo, precisamos dela. (Como traduzir vernissage, coaching ou mentoring para o português? Alguém tem alguma ideia?) Em terceiro lugar, não fossem os termos emprestados de outros idiomas, nosso léxico estaria no patamar das 10 mil palavras das línguas primitivas.

Mas o fato mais importante é que muitas vezes se reclama da invasão estrangeira sem razão. Um pouco de conhecimento etimológico (o verdadeiro, não o de almanaque) lançaria luz nesse embate infrutífero. Por exemplo, condenam-se “acessar” ou “deletar” como anglicismos quando a origem desses vocábulos está no latim accessum e deletum. Pior ainda quando os formadores de opinião condenam por estrangeira uma palavra que é originalmente vernácula.

No francês

Os termos franceses sport, tennis, performance, pudding, budget, interchanger e interview parecem anglicismos, não? E, de certo modo, são, afinal o francês os importou do inglês entre os séculos 17 e 19. Mas, como eles surgiram no inglês? É aí que vem a grande surpresa: tais vocábulos foram tomados de empréstimo ao francês!

Na Idade Média, era a língua dos francos e não a dos bretões que dominava a Europa. E tal influência fez com que os verbos esporter ou desporter (“distrair”), performer (“executar”) e entrechanger (“intercambiar”), dentre muitos outros, chegassem ao inglês. Seus derivados esport/desport (“distração, recreação”) e performance (“execução”) também aportaram nas ilhas britânicas. Tempos depois, essas palavras caíram em desuso em francês, substituídas por outras. Com a decadência do francês como língua hegemônica e concomitante ascensão do inglês a partir do século 19, muitos termos ingleses de origem francesa retornaram triunfalmente à sua pátria de origem, não sem receber, aqui e ali, as vaias dos puristas.

Os substantivos tennis, pudding, budget e interview também ocultam numa grafia exótica os antigos vocábulos franceses tenez, boudin, bougette e entrevue (hoje, entrevue é entrevista de emprego e interview é entrevista jornalística). Até os populares tablets, assim chamados na França, remetem à antiga palavra francesa tablette, “tabuleta”.

Esse fenômeno do retorno de uma palavra à própria língua, séculos depois, numa roupagem estrangeira, é o que se chama tecnicamente de retroviagem ou retroversão. Em princípio, qualquer língua pode dar e depois tomar de volta suas palavras. Mas isso é mais comum entre idiomas que são ou foram grandes exportadores de palavras – isto é, línguas de países política, econômica ou culturalmente hegemônicos. A retroversão se dá, em geral, quando uma nova potência hegemônica desponta.

Retroviagem

E os “bons filhos” do português, também a casa tornam? Hoje nossa língua é muito mais importadora do que exportadora de vocábulos. Mas durante os áureos tempos do Império Português, muitas de nossas palavras foram disseminadas pelos quatro cantos, como, por exemplo, o indonésio sepatu (“sapato”), o malaio keju (“queijo”) e o swahili meza (“mesa”). Dizem até que o japonês arigatô derivaria de “obrigado”, mas é pouco provável.

Algumas dessas palavras voltaram ao português. Quem hoje come uma tempura (ou tempurá) de legumes está na verdade comendo um prato introduzido no Japão por jesuítas portugueses que, por não consumirem carne vermelha durante a Quaresma (em latim, ad tempora quadragesimae), criaram uma receita à base de vegetais e peixes. Em Portugal, há até um prato muito parecido com a tempura, embora também se conjeture que a palavra proveio de “tempero” ou “temperar”, o que tornaria o termo ainda mais vernáculo.

Potência linguística

Temos ainda “fetiche”, apontado pelos dicionários como oriundo do francês fétiche, o que está correto. Mas fétiche nada mais é do que o nosso bom e velho “feitiço”, um tanto quanto amaneirado após uma longa estadia na França. O fetiche era o objeto usado pelos xamãs para lançar um feitiço sobre alguém, como se faz com os bonequinhos de vodu. Daí que de objeto mágico, alvo de veneração e respeito religioso, fetiche passasse a ser qualquer objeto de adoração, especialmente sexual. (Dizem que para muitos homens um carrão esportivo é objeto de fetiche; ou seja, eles ficam “enfeitiçados” pelo automóvel.)

Se os casos de retroviagem não são muito numerosos em português, é provavelmente porque a maioria das línguas que importaram nossos termos não sejam hoje exportadoras de vocábulos. Também não estamos devolvendo, aportuguesadas, palavras estrangeiras que importamos no passado, pois tampouco nós temos exercido grande influência cultural sobre outras nações – embora o quadro prometa mudar nos próximos anos.

Enfim, antes de condenarmos um estrangeirismo, é bom verificar se não estamos dando um tiro no próprio pé.

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