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  É CORRETO SER POLITICAMENTE CORRETO?

Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 30, abril de 2008

Embora a linguagem politicamente correta seja invenção norte-americana, expressões eufêmicas já existem no português há bastante tempo

A língua não serve só para comunicar. É também poderoso instrumento de persuasão e manipulação. Afinal, dominar pessoas por meio de discursos é mais eficiente do que manter um soldado em cada esquina. E, muitas vezes, a manipulação ideológica se oculta sob um manto de boas intenções. É o caso da chamada linguagem politicamente correta (PC, para simplificar).

Tempos atrás, o governo Lula lançou o documento Politicamente Correto & Direitos Humanos, mais conhecido como “cartilha do politicamente correto”, com 96 palavras ou expressões consideradas pejorativas, como “beata”, “comunista”, “funcionário público”, “preto” e “anão”. Essa iniciativa foi, à época, duramente criticada na imprensa.

Antes disso, já havia sido apresentado um projeto de lei determinando que todo texto oficial distinguisse “cidadãos” e “cidadãs”. (Lembra o “brasileiras e brasileiros” de Sarney, não?) Esse projeto foi questionado por representantes da sociedade civil, incluindo lingüistas e gramáticos, já que em português o gênero masculino também cumpre o papel do chamado gênero complexo, que serve para nomear seres de ambos os sexos. Ou seja, a palavra “cidadãos” já subentende as cidadãs.

Mas por que iniciativas desse tipo, aparentemente nobres e justas, terminam torpedeadas até por intelectuais?

Primeiro, é impossível legislar sobre a língua, ao menos em regimes democráticos (nos ditatoriais, é possível até proibir línguas, como fez Franco, na Espanha, com o catalão e o basco). Segundo, esse tipo de interferência do Estado na fala das pessoas é fascista.

Segundo o filósofo francês Vladimir Volkoff, autor de La Désinformation par l’Image, o PC é resultado da mistura dos restos de um cristianismo degradado, um socialismo reivindicativo, um economicismo marxista e de freudismo em permanente rebelião contra a moral do ego. É a observação da sociedade e da história em termos maniqueístas, decorrente da decadência do espírito crítico, e de uso comum entre intelectuais desarraigados. Diz ele: “Se compararmos a demolição do comunismo com uma explosão atômica, diremos que o politicamente correto constitui a nuvem radioativa que acompanha a hecatombe”.

Pesos e medidas

Em A Era dos Direitos, o sociólogo italiano Norberto Bobbio afirma que nunca se falou tanto em direitos (humanos, civis, dos animais, etc.) quanto hoje. O conceito de direitos humanos e civis remonta aos filósofos iluministas e à Revolução Francesa, mas foi retomado com força após a Segunda Guerra e o Holocausto, em 1948, ano em que a ONU lançou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Um dos corolários da ideologia do respeito aos direitos humanos foi a decisão de instituir uma linguagem eticamente adequada.

Os Estados Unidos tomaram a dianteira na defesa dos direitos humanos na década de 60, com o movimento pelos direitos civis, que questionava leis racistas. Mas foi no governo Jimmy Carter, na década seguinte, que a preocupação se intensificou. É mais ou menos nesse período que surge na língua inglesa o vocabulário PC (e começam também a pipocar ações judiciais absurdas com base nessa ideologia).

O fim da ditadura militar no Brasil levou a um extremismo oposto (se antes tudo era proibido, agora é proibido proibir). A Constituição de 1988 é reflexo disso. Numa época de radicalismo às avessas, vale lembrar a velha máxima latina: virtus in medio (a virtude está no meio; ou: nem tanto ao mar nem tanto à terra).

Afinal, nossa língua já oferece palavras perfeitas para expressar noções como “cego”, “surdo”, “aleijado”… Os próprios clássicos fazem um nada pejorativo uso desses vocábulos. Ou será que Machado de Assis e Eça de Queirós viraram politicamente incorretos? Por que mascarar a realidade com expressões mais longas e menos precisas? Se um deficiente (ou portador de deficiência, o que é ainda pior) é alguém cujas aptidões e características físicas estão abaixo do normal, então, do ponto de vista semântico, um míope não deixa de ser deficiente visual, um calvo (ou melhor, careca) também é deficiente físico, e assim por diante.

Da mesma forma, por que se referir a negros como “afro-descendentes” e não a brancos como “euro-descendentes”? Esse eufemismo criado pelos americanos e introduzido no português é, além de tudo, equivocado, como todos os termos PC: um brasileiro branco descendente de egípcios brancos é um afro-descendente, não é? Aliás, se a África é o berço da humanidade, então geneticamente somos todos afro-descendentes.

Sem necessidade

A verdadeira democracia se apóia em direitos iguais a todos. Mas há distância entre democracia e demagogia. (Aristóteles apontava a segunda como a degeneração da primeira.) O que temos hoje em muitos países são discursos e políticas demagógicas em relação às minorias (que às vezes são numericamente maiorias), criando leis cosméticas e mudando só os nomes das coisas, em vez de combater a desigualdade, com educação, serviços públicos de qualidade e redistribuição de renda.

Exemplo de lei demagógica: no Brasil, chamar um negro de “negro” (embora seja essa a sua cor) é crime inafiançável (racismo), mas matar um negro – ou qualquer pessoa – é afiançável (homicídio). Ou seja, o que a lei diz nas entrelinhas é: se você não gosta de negros, mate-os, mas não os chame de negros.

Embora a linguagem PC seja invenção americana que a mídia brasileira veicula acriticamente, os EUA não detêm o monopólio da hipocrisia: expressões eufêmicas já existem no português há bastante tempo. Chamar o negro de “moreno” ou “de cor”, embora pareça atitude de respeito, esconde um racismo: se evitamos usar “negro”, é porque consideramos ser negro um defeito. Apesar da aparente boa intenção, a linguagem PC só contribui para acentuar o preconceito.

É claro que há linguagem adequada a cada situação. Nenhum jornal vai referir-se ao desfile do orgulho gay como “passeata de bichas na Paulista” (embora um jornal mais popular tenha noticiado “mulherada se reúne em Campinas” sobre encontro de feministas). Trata-se de usar a linguagem com respeito, não com falsa piedade. Nesse sentido, o conceito de “politicamente correto” deveria ser substituído pelo de “lingüisticamente adequado”.

Linguagem e manipulação

É possível e relativamente fácil manipular a opinião pública por meio de palavras e expressões como “exclusão”, “tolerância”, “não-violência”, que representam conceitos maleáveis ideologicamente. Afinal, em relação a quem tem telefone e computador, quem não tem é excluído. Mas, em relação a quem tem casa com piscina e jatinho, quem não tem não é igualmente excluído? Enfim, qual o critério para definir o essencial e o supérfluo?

Em sociedades multiculturais e multiétnicas como a nossa, prega-se a tolerância. Mas tolerar é diferente de amar: tolerar é não agredir quem, no fundo, odiamos. Do mesmo modo, não-violência é diferente de paz ou fraternidade: a palavra “não-violência” remete a violência e é, portanto, só violência reprimida.

O que a linguagem PC faz é acobertamento ideológico pelo discurso, camuflando o problema em lugar de resolvê-lo (ao darmos nomes bonitos a coisas feias, elas nos parecerão menos feias). Assim, “recessão” passa a “crescimento econômico negativo”, “morte” vira “cessação das atividades vitais”, e “morrer” é “ir a óbito”. “Favela” se torna “comunidade carente”, e “pobreza”, “exclusão social”. Quem tem cabelo pixaim ou carapinha pode ir a um salão especializado em “cabelo étnico”. Na linguagem corporativa, chefe virou “líder”, e empregado agora é “colaborador”.

Invenção postiça

O povo, mesmo, satiriza tais expressões porque percebe o ridículo delas (vide o “tucanês” de José Simão), e aí passa a denominar anão de “pessoa verticalmente prejudicada” e careca de “deficiente capilar”. O próprio povo não usa denominações bizarras: o morador de favelas se diz “favelado”; o pobre se refere à sua condição como “pobreza”, não “exclusão” ou “carência”. Enquanto ONGs fazem o policiamento lingüístico da imprensa à caça do politicamente incorreto, os próprios negros de classe baixa se tratam uns aos outros e a si de “negro”, “preto” ou “negão”, sem conotação pejorativa, mas antes carinhosa.

A falsa intelectualidade brasileira, aliás, contribui muito para aclimatar em terras tupiniquins essa hipocrisia: se Nelson Rodrigues diz que a pior forma de solidão é a companhia de um paulista, ele é gênio da literatura; se um cidadão comum diz a mesma coisa, é racista.

A linguagem PC é pseudodemocrática: em nome da preservação da dignidade e dos direitos humanos, exerce patrulhamento ideológico e caça às bruxas típicos dos regimes autoritários, vendo preconceito em tudo (por exemplo, ao achar que a expressão “a coisa tá preta” é referência pejorativa à raça negra, quando é apenas a constatação do toró iminente).

Palavras como “democracia”, “cidadania”, “inclusão social”, “direitos humanos” e outras, de tão repetidas, tornam-se desgastadas e vazias de sentido ou, pior, passam a significar o contrário do que diziam originalmente. Não por acaso, é nas ditaduras que palavras como “democracia” e “cidadania” são mais usadas, sempre com sentido distorcido. É por isso que Hugo Chávez fala tanto em democracia em seus discursos. Portanto, o fato de tais palavras estarem tão em voga no Brasil atual deve ser para nós um sinal de alerta.

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