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  O “ÃO” DO IDIOMA

Publicado em Língua Portuguesa, ano 3, n.º 46, agosto de 2009

A pronúncia de ditongos nasais desafia estrangeiros e mostra a força das sonoridades típicas de cada língua

Toda língua tem sonoridade própria, uma musicalidade toda especial que a distingue e a torna reconhecida mesmo por quem não a fala. É como se cada idioma fosse uma melodia tocada num instrumento diferente.

Embora boa parte dos sons seja comum a muitas línguas, há os que são típicos e, por vezes, exclusivos de determinados idiomas. São, por isso mesmo, os que melhor os caracterizam: o ceceio do espanhol madrilenho, o erre “enrolado” do inglês americano, a nasalidade do francês, o ch estridente do alemão, que faz até uma declaração de amor como ich liebe dich (“eu te amo”) nos parecer pouco romântica… Sem falar em traços estranhíssimos para nós, como a entonação ondulante do mandarim ou os estalidos de algumas línguas africanas.

A pronúncia peculiar que identifica um grupo linguístico é chamada de xibolete (do hebreu shibboleth‎, espiga, torrente). Tudo porque, segundo o Velho Testamento (Juízes, 12: 1-15), havia duas tribos semitas em guerra, os gileaditas e os efraimitas. Vitoriosos, os primeiros bloquearam os acessos ao Rio Jordão para impedir que os inimigos escapassem. Como o dialeto dos efraimitas não tinha o som sh, que eles substituíam por s, os gileaditas exigiam que quem chegasse ao rio pronunciasse a palavra shibboleth. Ao pronunciar sibboleth, os pobres efraimitas eram reconhecidos e executados.

Esse “filtro” linguístico já foi usado muitas vezes ao longo da história, tendo propiciado vários massacres. Mas o xibolete é também o que dá um colorido especial às línguas, uma espécie de tempero próprio, como aquela comida que só a mãe da gente sabe fazer. Enquanto uns torcem o nariz para o sotaque estrangeiro, outros se deliciam ao ouvir um francês dizer “minha querrida” ou um espanhol pronunciar “ôdjos açuis”.

Aliás, como a língua portuguesa tem cerca de uma dezena de fonemas a mais que a espanhola, é teoricamente mais fácil a um brasileiro falar castelhano do que a um argentino falar português. É que os falantes do espanhol não distinguem entre é e ê, ó e ô, ss e z, b e v, e outros. Além disso, em lugar de ch, eles têm tch. (Experimente pedir a um hispânico que pronuncie “Xou da Xuxa” e veja o que acontece.)

Embora o português não tenha sons muito exóticos, temos um esplêndido xibolete: os ditongos nasais ão, ãe e õe. De extrema dificuldade para estrangeiros, esses grupos sonoros são, ao mesmo tempo, desafiadores e sedutores. Afinal, poucas línguas têm vogais nasais, menos ainda ditongos nasais. Não é à toa que, para os estrangeiros, essa seja a maior dificuldade da pronúncia do português. Para eles, “coração” acaba virando “coraçao” ou “coraçon”.

Alguns filólogos apontam a origem germânica do ão, algo pouco provável, pois a queda do n intervocálico nos dialetos da Ibéria ocidental na Alta Idade Média (séculos 5 a 11 d.C.) fazia o sufixo latino ‑anu tornar-se ‑ão (germanu > “irmão”). O que possivelmente ocorreu foi a extensão desse som às terminações que antes eram ‑on, como em razon (latim ratione), que evoluiu para “razão”. A ditongação das terminações nasais também atingiu as palavras com final ‑em, embora a grafia não o revele (“vem” e “tem” pronunciam-se como “veim” e “teim” no Brasil e como “vãe” e “tãe” em Portugal).

Seja qual for a sua origem, os ditongos nasais dão charme à língua portuguesa. Tanto que uma estatística, feita pelo músico Gustavo Martins sobre rimas na MPB, mostrou que, dos 11 pares mais frequentes de palavras, as rimas em ão aparecem três vezes. É por isso que se costuma chamar o português de “a língua do ão”.

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