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Anatomia da Cultura

O que distingue o homem dos outros animais é sua capacidade de modificar a natureza de acordo com sua inteligência e vontade. Com efeito, o ser humano é o único animal capaz de desviar o curso de um rio, de produzir fogo, de alterar o equilíbrio ecológico e mesmo de interferir em seus próprios instintos biológicos; é também o único animal a usar roupas, a cozer os alimentos, a praticar a agricultura, a fazer sexo o ano inteiro e não apenas na época do cio, etc. Portanto, ao adquirir o poder de interferir arbitrariamente no funcionamento da natureza e ao assumir o controle de seus instintos, o homem produziu uma ruptura entre o universo natural e o universo das práticas humanas, também chamado de universo cultural.

Segundo a antropologia estruturalista, cujo maior expoente é, sem dúvida, Claude Lévi-Strauss, pertence ao universo da cultura tudo o que o homem acrescentou à natureza, assim como tudo o que não é hereditário, mas aprendido pelo homem. Estabelece-se, assim, a famosa dicotomia natureza x cultura, que pauta todos os estudos em ciências humanas, sobretudo no século XX. Todavia, é preciso acrescentar a essa definição de cultura o seu aspecto social, pois todo homem, assim como de resto todo animal dotado de alguma inteligência, é capaz de aprender a partir da própria experiência. Assim, qualquer um que, não conhecendo o fogo, se aproxime dele o suficiente para queimar-se, aprenderá, mediante a experiência da dor, que deve manter distância do fogo. Tal aprendizado é igualmente possível a um homem, a um cão, a um gato, etc. O conhecimento aí adquirido, no entanto, somente passa a fazer parte da cultura no momento em que seja socialmente partilhado. Em vista disso, o homem é, ao que se sabe, o único animal capaz de partilhar com seus semelhantes o conhecimento adquirido por meio da experiência.

Todas as práticas humanas, sejam elas produto do instinto ou da cultura, são o resultado de uma programação semelhante à de um computador. Nesse sentido, atos instintivos, como respirar, piscar os olhos, dormir, fazer as necessidades fisiológicas, gritar de dor, e práticas culturais, tais como ler, escrever, escovar os dentes, dirigir um automóvel, dentre outras, são programas mentais que ativamos toda vez que se faça necessário. A diferença entre os comportamentos instintivos e os culturais é que os primeiros são transmitidos por um indivíduo a seus descendentes por via hereditária, pelo código genético; portanto, os programas que os determinam já se encontram implantados em nosso cérebro quando nascemos, tal qual o sistema operacional dos computadores. Os comportamentos de índole cultural, por sua vez, precisam ser aprendidos, isto é, têm de ser transmitidos de um indivíduo a outro pelo uso da linguagem. Nos termos de Yuri M. Lotman, fundador da semiótica da cultura, a cultura é a memória não-hereditária da coletividade. Como se pode notar, a linguagem exerce um papel fundamental na transmissão da cultura. Mais do que isso, é a própria linguagem que modela uma cultura e estabelece uma particular visão de mundo, uma vez que os signos que a compõem não representam uma realidade preexistente, mas criam efetivamente essa realidade. Se noite (período que vai das 18 às 24 horas) e madrugada (período que vai das 24 horas de um dia às 6 horas do dia seguinte) são duas realidades diferentes em nossa língua — e, conseqüentemente, em nossa cultura —, não é porque objetivamente exista um limite concreto que as separe, mas na verdade a adoção dessas palavras na língua portuguesa é que estabeleceu a existência de tais realidades. Prova disso é que nos países de língua inglesa, por exemplo, não existe noite ou madrugada, mas apenas night, isto é, período de tempo que se inicia à hora de deitar e que termina ao nascer do sol.
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Contudo, como já dissemos, quando se fala em cultura, desde logo entra em cena uma distinção fundamental entre duas acepções diferentes, embora semanticamente relacionadas, dessa palavra: num sentido amplo, cultura é tudo aquilo que, no homem, não é produto exclusivo do instinto biológico e da herança genética; é tudo aquilo que o homem aprende, todo o acervo de conhecimentos transmissíveis de um indivíduo a outro e de geração a geração por meio da linguagem. É o “acervo de bens materiais e espirituais acumulados pela espécie humana no decorrer do tempo, mediante um processo intencional ou não de realização de valores”. Nesse sentido, excetuados os comportamentos exclusivamente instintivos mencionados acima, todas as demais atividades humanas (a caça, a agricultura, o artesanato, a indústria, o comércio, as comunicações, os transportes, a política, a guerra, etc.) são atividades culturais. Podemos então avaliar o grau de civilização de uma sociedade num determinado momento de sua história pelo testemunho de suas manifestações culturais, representadas por todas essas atividades. É oportuno ressaltar que todos os estudos de semiótica da cultura até agora realizados partem dessa acepção antropológica de cultura que chamamos aqui de cultura lato sensu.

Já em seu sentido mais estrito, o termo cultura designa algumas atividades específicas do ser humano que estão diretamente ligadas ao intelecto, à busca do conhecimento e à manipulação desse conhecimento por meio da linguagem. Nesta segunda acepção, a palavra cultura é utilizada para designar atividades que visam ao aperfeiçoamento físico, intelectual, moral e espiritual do ser humano e de sua civilização. Essas atividades, que constituem aquilo que chamamos na introdução de cultura stricto sensu, são, conforme foi dito, a arte, a ciência, o esporte e a religião. Nota-se assim que a cultura corresponderia mais especificamente ao acervo de bens espirituais da espécie humana. Por isso, já que existem dois conceitos diferentes, embora aparentados, de cultura, existem também duas diferentes possibilidades de estudo semiótico da cultura: uma semiótica da cultura lato sensu, isto é, o estudo semiótico de todo o processo histórico da civilização humana, e uma semiótica da cultura stricto sensu, isto é, o estudo semiótico da arte, da ciência, do esporte e da religião. A partir de agora, sempre que utilizar as palavras cultura e cultural, estarei me referindo à segunda acepção dessas palavras, reservando à cultura no sentido antropológico os termos antropocultura e antropocultural.

Dada a íntima ligação existente entre a cultura e a linguagem, uma das características básicas das atividades culturais é o fato de serem todas elas atividades semióticas, isto é, atividades que manipulam linguagens. São, portanto, atividades produtoras de discursos, mais especificamente discursos sociais, cujo emissor e receptor são tidos como coletivos. […]

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